Blig: (8(> - Matusal�m Matusca

(8{> - Matusalém Matusca


(8{> - Eu!?
Papiros



Sarc�fago



24/06/2003 16:25

(8{> - Seu Coisa.

Para entrar no meu sítio, o único acesso era atravessando um pequeno rio, normalmente raso. O problema é que quando chovia demais na serra, ele crescia bastante e algumas vezes era muito difícil atravessar. Mesmo assim, quase sempre conseguia e só umas quatro ou cinco vezes fiquei encalhado.

Numa dessas, calculei mal o estrago que o rio fez na outra margem e o ângulo de ataque da picape não foi suficiente pra vencer o barranco. Bati com força e voltei pra dentro do rio. Só restava abrir as portas e deixar os lambaris se divertirem.
Olhei em volta procurando o Bem-te-vi - um garoto, que comia todas as frutas maduras do sítio. Como sempre, lá estava ele. Bem ou mal comparando, ele tinha o instinto dos cachorrinhos, que misteriosamente sabem quando estamos chegando em casa.
Gritei: Bem-te-vi vai chamar o Mica! Diz pra ele trazer uma enxada e um burro pra puxar o carro. O Bem-te-vi voou.

Logo depois o caseiro chegou. Olhou pra picape, encalhada dentro do rio, coçou a cabeça e mandou:

“Ih, Seu Coisa, acho que dessa vez vamos precisar de mais burros pra tirar do que precisou pra botar”.

Nos tratávamos de “seu coisa” - uma invenção matusquela dele. Se o “Seu Coisa” não fosse o caseiro mais engraçado e amigo que tive, podia correr um sério risco de ficar sem receber o pagamento da semana.

(8{> - Seu Coisa de bicicleta nova.

O caseiro do meu sítio era mesmo uma figuraça: Forte, esperto, meio matusquela também e, principalmente, um amigo pra qualquer situação.

A bicicleta dele estava em frangalhos. Um dia, levei de presente uma Peugeot novinha que eu tinha. O bicho ficou doido com a bicicleta e sumiu o resto do dia. Já escurecendo, passa em disparada na frente da minha varanda. Parecia um Eski-Bon quebrado - pretinho, de calção, tênis e camiseta brancos - e gritando: “Aê seu coisa, amanhã aumentamos o cercado dos preás, hoje eu me transbordo!”

Os tais preás, eram parte de um projeto matusquela. Mais um, que achei “genial” e que poderia resolver o problema da fome no nordeste.
Comprei vários porquinhos-da-índia e também comprava, todos os preás selvagens, vivos, que os garotos caçavam pra comer. São da mesma família, e a idéia era conseguir, com cruzamentos, uma carne mais saborosa, que só as selvagens têm. Não deu certo porque são muito ariscas e quando presas se machucavam. Tive que soltar.
Nem preciso dizer, que os outros porquinhos chegaram saudáveis na idade de usar dentadura e bengala.

No Peru chamam de “cuy” e é a terceira carne mais vendida em supermercados. Uma universidade de lá já conseguiu, através de pesquisas genéticas, desenvolver cuys com mais de 2 quilos. Tentei, com contatos na Embaixada do Peru, importar algumas. Era tanta burocracia e barreiras sanitárias que desisti.

Para quem está achando estranho, um lembrete: Na roça ninguém troca carne de preá por galinha nenhuma.

Tatu tô fora: eles gostam de cavucar sarcófagos.

(8{> - A Cozinheira, Seu Coisa, as Cordornas e a Múmia Feliz.

Se você gosta de animais não é uma boa idéia ter um sítio. Se tiver, nunca coloque ou deixe colocar nomes em bichos comestíveis.
Fiquei um tempão engordando dezenas de patos, galinhas e outros bichos. Era um tal de: não dá pra comer a Francesinha, o Bip-Bip nem pensar, a Matilda não, a Canelinha também não, e assim caminhava a humanidade. Era mais fácil uma galinha morrer de ataque cardíaco do que ir pra panela.

Um dia, o caseiro veio com um papo de que várias codornas não estavam mais botando ovos, que estavam ficando velhas, etc.
Conseguiu me convencer que era melhor comer as bichinhas do que abrir um asilo de codornas.
Autorizei o sacrifício, mas ele que cometesse o codorcídio na cozinha dele e trouxesse os bichinhos limpinhos pra Matusalinda.

Ela, como sempre, caprichou: Codornas, arroz de forno, pinhões assados e purê de maçãs. Um vinho decente e tivemos um jantar muito sério.
Na sobremesa, depois de um doce de cajá divino, o caseiro ficou pensantivo.
Perguntei: No que está pensando, Seu Coisa?
Ele, coçando a cabeça: “Sabe o que é, Seu Coisa, esse negócio de esperar ovo não tá com nada, vamos traçar todo mundo amanhã mesmo.”

Mais tarde, deitado na rede com a Matusalinda, olhando as estrelas, eu era feliz... e sabia.

enviada por Matusalém Matusca






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